Bem-vindo (a)

Para quem acredita na existência de Deus, há sempre uma luz radiante, ainda que a vida pareça mergulhada em profunda escuridão. Chega um momento que precisamos nos libertar dos grilhões, das amarras e correntes que nos enclausuram num pequeno mundo, sairmos da nossa caverna e irmos de encontro à luz.

sábado, 29 de outubro de 2016

Quando se cospe no prato em que come


De todas as espécies existentes e conhecidas neste mundo, na opinião deste humilde colunista, o ser humano, talvez, seja a espécie que mais se subdivide dentro do mesmo grupo tribal,  dito de outro modo, e aí já não é mais texto meu e sim de Samuel Butler, “o Homem é o único animal que pode permanecer, em termos amigáveis, ao lado das vítimas que pretende engolir, antes de engoli-las.” Existem os seres humanos bons, os ruins; os honestos, os falsos; os brincalhões, os mal-humorados e muitos outros, mas de todas as subdivisões, duas são as piores: a dos preguiçosos, porque são oportunistas, covardes, falseadores, egocêntricos, canalhas e aproveitadores; e a dos mal-agradecidos, porque os que se inserem nessa categoria sempre cospe no prato que come e, por muitas vezes, foi naquele prato que o indivíduo saciou sua fome. Nem os mentirosos, nem os mal-agradecidos são capazes de enxergar no outro uma virtude, uma vez que estes não honra nem a si mesmo.

Já presenciei indivíduo dessas duas espécies a se tornar amigo do seu pior inimigo. Não por amolecimento no coração, mas pensando no proveito financeiro que ele poderia tirar da situação. Já presenciei, de maneira vergonhosa, elemento dessasespécies, depois de viver uma vida no pecado, seguir uma doutrina, não por ter se tornado cristão, mas porque ali ganharia o pão, já que a preguiça o condenava a viver através de doações de um e de outro para seu sustento e da família.

Alexander Pope, poeta inglês disse um dia que: “Aquele que diz uma mentira não sabe a tarefa que assumiu, porque está obrigado a inventar vinte vezes mais para sustentar a certeza da primeira.” Daí a necessidade de se policiar todo o tempo para não irmos contra nossos próprios ideais, até porque como já foi dito numa canção: “Quando a verdade chega, a mentira some, tem bom caráter o homem que não se corrompe”.

Falando ainda de espécies multifacetadas, poderíamos classificá-las novamente em duas: uma preocupada apenas com seu próprio umbigo, bolso e bem-estar que chega a ser tão hipócrita ao ponto de se satisfazer com a desgraça do seu semelhante e, para tanto, chega ao ponto de contribuir para isso, de maneira direta; e outra, politizada para defender interesses coletivos ao ponto de dedicar uma vida ao próximo. A primeira espécie habitua a saciar sua fome no prato da segunda e depois cuspir no prato, mas pior que cuspir no prato que comeu é ter que voltar a comer no mesmo prato!

Gilson Vasco
Escritor



Triângulo das Bermudas


Cemitério do Diabo ou pura ficção?

Há muito já circula pela rede mundial de computadores uma avalanche de lendas relacionadas ao Triângulo das Bermudas, mas nada como a mais recente delas que fantasia-se um navio reaparecido recentemente depois de 90 anos desaparecido.

É fato que em 29 de novembro de 1925, um navio da SS Cotopaxi zarpou do porto de Charleston, na Carolina do Sul, em direção a Havana, Cuba. A bordo, diz a história, haviam 32 tripulantes, comandados pelo capitão W. J. Meyer e transportavam, no navio, 2,3 toneladas de carvão. Diz ainda que, dois dias depois da partida, o navio foi dado como desaparecido, de modo que, depois disso, ninguém ouviu noticiar nada durante os 90 anos que se seguiram. Garante a lenda que a Guarda Costeira de Cuba anunciou, em maio de 2015, ter encontrado um navio não identificado à deriva e que tudo indicava se tratar do SS Cotopaxi, que como disse que diz a historia,desapareceu em 1925.

Se na época do desaparecimento, a história serviu para enfatizar ainda mais a bizarra e assustadora lenda do Triângulo das Bermudas, de ser o Cemitério do Diabo, mais recentemente, com o boato de que, em 16 de maio de 2015,a Guarda Costeira cubana tenha avistado um navio, ao longo de Havana, próximo de uma área militar restrita, a imprensa midiática aproveita para enfatizar ainda mais defendendo que,ao interceptá-lo, se depararam com um navio de quase 100 anos, confirmando, então, se tratar realmente do lendário navio desaparecido em 1925.

Mas, afinal, porque esse mistério todo acerca do Triângulo das Bermudas? Ora, o Triângulo das Bermudas é o nome que se dá à região que forma um triângulo, compreendida entre Miami, Porto Rico e a Bermudas, por isso, o nome Triângulo das Bermudas. Porém, o mais chocante de tudo isso é que, ao longo da história, milhares de aviões e navios que ousaram atingir àquela rota desapareceram sem deixar rastro! De modo que, existem várias teorias que tentam, em vão, entender o mistério. Até então, o que se tem de concreto é que até mesmo indivíduos renomados no campo das ciências geográficas e físicas que tentaram desvendar o mistério e altas patentes militares que relataram ter visto objetos voadores não identificados (OVNI), naquela área, perderam sua credibilidade ao ponto de verem suas carreiras literalmente arruinadas, dado o fato de os cientistas não terem provas de nada.

E porque a falsa notícia do reaparecimento do navio, em 16 de maio do ano passado,ganhou tanta repercussão justamente agora?O Triângulo das Bermudas é um local cercado por lendas e teorias sobre mortes, ataques, desaparecimentos de navios, aviões e supostos acontecimentos inexplicáveis, por isso, a notícia ter ganhado tanto destaque em inúmeras páginas como sites, blogs, jornais e revistas. Mas que fique óbvio que, apesar de um emaranhado de pessoas tratarem o ocorrido como se fosse um desaparecimento associado o incidente com as lendas sobre o Triângulo das Bermudas, essa história é falsa,  uma vez que não há nenhuma nota da Guarda Costeira cubana comprovando o achado, bem como, não houve nenhuma confirmação de órgãos oficiais sobre o suposto reaparecimento do navio, isto é, o navio SS Cotopaxi existiu de fato e afundou em 1925, durante uma viagem entre a Carolina do Sul e Havana, prova evidente do naufrágio foi deixada pelo capitão em sua última transmissão de rádio avisando que o navio estava afundando.

Gilson Vasco
Escritor


sexta-feira, 8 de junho de 2012

Minha primeira briga


Desde pequeno já ouviam as pessoas dizerem que há a primeira vez para tudo. Quando se é pequenino não se tem muita noção do mundo que nos cerca. Mesmo assim, não demorou tanto tempo para a compreensão, afinal, os dias passam muito velozes. Fui aos poucos crescendo... De repente, sem ao menos que alguém percebesse, me vi indo sozinho à escola, cortando os cabelos e, em seguida, fazenda a barba! E o legal disso tudo é que tudo aquilo estava acontecendo comigo pela primeira vez. Até hoje ainda me lembro da primeira vez que briguei. Claro, existem aquelas discussões banais que se resolvem com pouco diálogo. Essas acontecem frequentemente na vida de qualquer um. Mas eu estou falando de socos e pontapés. Era uma tarde estressante, lá pelas quatro horas. Saí de casa em direção a uma caixa de coleta dos correios que ficava numa avenida longa e movimentada para colocar umas cartas. Fui rápido, muito rápido mesmo, pois o carteiro já estava quase passando e eu queria que minhas correspondências viajassem ainda àquele dia. Então, antes de chegar à avenida, quando estava numa rua estreita, avistei umas pessoas sentadas numas cadeiras de balanço, em frente a uma casa, cujos portões estavam escancarados. De repente, um dos moradores daquela residência saiu para a rua a toda velocidade e pulou em mim! Assustado e sem saber o que realmente estava acontecendo, tirei meu corpo de banda, com a intenção involuntária de deslocar o suposto inimigo, o que de fato aconteceu. Mas, em seguida, quando olhei para trás vi ele pronto para atacar, só então percebi que o negócio era para valer, e, que se eu não batesse, apanharia. Aquela velha expressão da minha mãe de que “quando um não quer dois não brigam” caiu por terra. Foi aí que preparei: fechei a minha mão direita, quando ele novamente avançou em mim, dei lhe uma paulada, minha mão, ajudada pela raiva, pegou de cheio em cima da sua orelha que o derrubou! Logo, ele se levantou, e, outra vez, veio em minha direção... Nisso, seu superior tentava lhe conter, mas não sei porque ele insistia em me pegar... Fiquei trêmulo de medo e fui levado pelo impulso a nocauteá-lo. As mulheres que estavam sentadas gritavam sem nada poder fazer. Creio que elas chegaram a apanhar algumas vassouras para me defender ou para me surrar, mas ainda não sei. Tudo aconteceu muito rápido. Dei outro soco na cabeça dele, o suficiente para a sua decisão. Ele se levantou, olhou para meus olhos brilhosos como os dele e saiu... 

Minhas roupas ficaram imundas, mesmo assim segui para a avenida e coloquei as cartas na caixa de coleta dos correios. Por sorte o carteiro ainda não havia passado naquele dia. De volta, encontrei um dos moradores daquela estância, que sorria com disfarce e me perguntou se eu havia sido ferido. Sem nenhuma graça falei à verdade: Não! Chegado em casa contei o fato para a minha família que de início não quis acreditar, até eu que havia sofrido a ação ainda não tinha acreditado, tampouco entendi direito o que foi aquilo, parece ter sido sonho, mas os vestígios em meus vestuários, semblante e no corpo mostravam a verdade. 

Hoje, porém, fico imaginando que eu, talvez, não precisasse ter surrado aquele grandalhão. Mas ele foi treinado para isso. Era um segurança da casa. Quem sabe se eu não lhe tivesse vencido, não estaria aqui contando esse acontecimento. Poderia ter morrido! Mas o que me deixa perplexo mesmo é de saber que a minha primeira briga, e, espero que também seja a última, tenha sido com um cão! 

Gilson Vasco 
Escritor


Ditadura nunca mais! Agora temos um reino encantado!


Iniciada por volta da década de trinta, a ditadura de Vargas durou oito longos anos. Durante esse período ninguém podia criticar o governo, as greves foram proibidas, os sindicatos controlados pelo Estado, a imprensa foi censurada de tal modo que cada redação de jornal tinha um sensor para julgar o que podia ou não ser publicado, o rádio passou a ser utilizado basicamente para a divulgação dos projetos do governo ditatorial. Nesse período, o Brasil participou da Segunda Guerra Mundial, ao lado dos Estados Unidos da América e outras nações aliadas. O país vivia uma situação contraditória, pois lutava pela democracia no exterior, combatendo o fascismo, mas vivia sob um regime ditatorial.

Oito anos mais tarde, com a destituição de Vargas, nascia no povo brasileiro um fio de esperança de um futuro mais livre, porém, dezenove anos mais tarde o Brasil sofreria uma maldição pior do que aquela do governo Vargas, ou seja, o regime anterior foi apenas um ensaio para a instauração de uma mancha que parecia não ter fim: a Ditadura Militar, pior do que qualquer outro regime visto ou vivido anteriormente no Brasil. 

Mas entre os anos de 1964 e 1985, período em que o Brasil foi governado pelos militares, fomos vítimas de uma verdadeira falta de democracia, de uma grande supressão dos nossos direitos constitucionais, da censura e da perseguição política. O mundo passava pelo período da Guerra-Fria – conflito ideológico, político e econômico travado entre os Estados Unidos da América, defensores do capitalismo e a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, defensora de uma forma de socialismo – e os Estados Unidos da América temiam que o Brasil se voltasse para o lado comunista.

Com isso, caso um governo socialista fosse implantado em algum país, o governo norte-americano o tinha como uma ameaça a seus interesses. Por outro lado, se eventualmente um movimento popular tentasse combater uma ditadura militar apoiada pelos Estados Unidos da América, imediatamente receberia apoio soviético.

Daí em diante, o artigo 59 da Declaração Universal dos Direitos Humanos, que reza que ninguém será submetido à tortura, nem a tratamento ou castigo cruel, desumano ou degradante, anteriormente assinada pelo Brasil foi ignorado durante vinte anos pelas autoridades brasileiras. Criou-se dezenas de formas diferentes de tortura, mediante agressão física, pressão psicológica e utilização dos mais variados instrumentos, aplicados aos presos políticos brasileiros, jornalistas e a todos aqueles que, para o Estado, conspiravam contra o golpe.

Com o término da ameaça comunista na América Latina, os norte-americanos sugeriram aos militares golpistas a entregarem o poder aos civis. Ora, como poderia uma nação já domesticada a adquirir os produtos do Tio Sam continuar sob uma tortura infernal?! Era feio aos olhos do mundo. O povo tem mais é que ser livre para comprar, consumir o que quiser à sua maneira, e não ficar alienados a um gosto comum. Elegante é ser diferente.

– People of Brazil, make this country a country of kings and queens!

– Viva! Viva! Mil vezes viva! Agora somos livres!

– Puxa... Logo agora que temos liberdade, não temos muito o que fazer...

            Não importa o que faça, desde que continue consumindo os mais diversificados produtos do Tio Sam, afinal, agora o povo brasileiro é livre e pode jogar futebol, cantar e dançar! Brevemente terá um reino encantado. 

Não demorou, logo, a terra que antes fora dos lusitanos transformou-se num verdadeiro paraíso, digo, num majestoso reino encantado, onde todos passaram a gozar de iguais direitos. É verdade que ainda existia um pouquinho de vestígio do preconceito racial, mas isso nada demoraria a se apagar completamente. Ora, onde já se viu admitir preconceitos ou divisão de classes num País livre?!

Para aniquilar de uma vez por todas com esse tal preconceito pensou-se em criar um rei, mas não poderia ser um rei qualquer, devia ser um rei reverenciado por todos e que fizesse nascer em cada um daqueles que sobrou da ditadura, bem como em sua safra, um enorme desejo de não ficar parado olhando para trás. 

– Copa do Mundo?! Na televisão?!

Ajudado pela televisão, criou-se então não somente um rei para fazer a alegria do povo livre e transformar esse solo brasileiro num território de peladas. Extinguiu-se a fome de tal maneira que matou-se dois coelhos com uma paulada só. Criou-se um rei atleta, jogador e, melhor ainda, por ser meio escurinho, o resquício de preconceito racial que teimava em não se apagar, foi-se extinguido da Nação para sempre. Não é de vibrar, dando um soco no ar, comemorando a alegria? Com isso, todos passaram a se preparar para mais uma disputa futebolística mundial. Quem sabe até mesmo o povo brasileiro novamente seria campeão.

– Não é bom que o homem fique só.

Para aguçar o ânimo dos nossos pequeninos, considerados o futuro do País, quando devia ser o presente, criou-se a rainha dos baixinhos, a qual sempre os amou de tal modo que chega a sofrer quando eventualmente se encontra com um menor abandonado, coisa muito rara nesse chão brasileiro. No ato do casamento entre o rei e a rainha, alegremente o povo cantava e dançava. A coreografia era inovadora: dava um pulo e ia para frente, e como se fosse um peixinho nas águas límpidas dos rios brasileiros voltava para trás e ainda convidada quem estava fora para entrar na dança: quem quiser dançar com a gente, está na hora, venha, não demore mais. E não é que, aos poucos, o povo ia dando o seu alô?!

Nessa genialidade de transformar o Brasil em reino encantado, onde a felicidade e a igualdade foram construídas para todos, cada dia nascia um novo rei. Criou-se também até o rei da música. Bicho, francamente, não são tantas emoções?

Passaram-se pouquíssimos anos, pouco mais de vinte e cinco, para ser mais preciso, e hoje, somos uma só raça, uma só classe, um povo de direitos e deveres iguais! De alta-estima elevada. Bem pudera, ganhamos respeito. Até a polícia, antes ditatorial, nos trata de modo educado nas abordagens! Para que ainda se lembrar da Ditadura se agora o reino encantado é o País do Futebol e do Carnaval, coisas que não matam, não engordam e nem faz mal?

Gilson Vasco
Escritor













quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

Goiás, Patrimônio Histórico e Cultural da Humanidade



Depois de grande mobilização popular, sob coordenação do Movimento Pró-Cidade de Goiás – Patrimônio da Humanidade, evento que reuniu entidades da cidade de Goiás, o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, o Iphan e os governos municipal e estadual, no dia 13 de dezembro de 2001, há exatos dez anos, a Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura, a Unesco, referendou Goiás, cidade histórica e turística que, por mais de duzentos anos, carregou consigo a função de capital do Estado, com o título de Patrimônio Histórico e Cultural da Humanidade.

E o que é Patrimônio Histórico e Cultural da Humanidade? Bem, considera-se a existência de duas formas de patrimônios históricos, sendo uma cultural e a outra natural. O patrimônio histórico cultural reúne, por exemplo, centros históricos, monumentos, santuários e ruínas; já o patrimônio histórico natural são, por exemplo, áreas de conservação e parques nacionais. Mas como o principal tema deste artigo está focado exclusivamente para a cidade de Goiás, que no próximo dia 13 de dezembro, comemorará uma década de tombamento conferiremos, a partir de agora, quais os requisitos que uma cidade precisa ter para ser tombada como patrimônio da humanidade.

Para ser considerado legalmente como patrimônio da humanidade um centro urbano precisa ter importância mundial. Assim sendo, sua conservação e preservação devem ter interesse internacional. Uma vez uma cidade sendo tombada como Patrimônio Histórico e Cultural da Humanidade ela ganha mais atenção, ajuda e recursos para a sua manutenção e conservação, haja vista que muito mais difícil do que receber o título é conservá-la. Desse modo, é garantida à Unesco, entidade da Organização das Nações Unidas, a ONU, que cuida de Educação, Ciência e Cultura a tomada de decisão do tombamento de um dado lugar ou monumento. Porém, para se candidatar, o lugar precisa primeiro ser indicado por algum órgão nacional que no caso do Brasil, o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis, o Ibama, inscreve as áreas naturais, e o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, o Iphan, responde pelas áreas culturais.

Vila Boa, Goiás, Cidade de Goiás ou Goiás Velho, não recebeu o título de Patrimônio Histórico e Cultural da Humanidade simplesmente pelo fato de ter sido a capital deste Estado por mais de duzentos anos, a cidade bela de arquitetura barroca peculiar, de tradições culturais seculares, circundada por natureza exuberante, de becos e casarões causadores de inspirações, berço dos versos da poesia de Cora Coralina; cidade guardiã do rio Vermelho, invasor dos quintais das velhas casas é uma cidade que há muito vinha fazendo por onde merecer essa honraria.

Um recorte histórico

Com as constantes investiduras dos bandeirantes, vindos principalmente das regiões paulistas, em territórios goianos, com a intenção da descoberta e, posterior, apropriação das minas de ouro, o que tempos depois ocasionou na extinção dos índios, Bartolomeu Bueno da Silva, o Anhanguera, um dos mais importantes bandeirantes a desbravar o interior do Brasil, durante o período colonial fundou em 1727, o Arraial de Sant’Anna que, pouco mais de uma década depois, foi elevado à condição de vila administrativa, com o nome de Vila Boa de Goyaz. Por esses idos, Vila Boa ainda pertencia à Capitania de São Paulo e somente mais de uma década depois, precisamente em 1748, foi criada a Capitania de Goiás, tendo como primeiro governador, dom Marcos de Noronha, o Conde dos Arcos, que chegou ali por volta de 1753.

Com o Conde dos Arcos, logo, a vila transformou-se em capital da comarca. Nos anos de 1950, o governador, dom Marcos de Noronha construiu a Casa de Fundição e em 1751, edificou o Palácio Conde dos Arcos, como forma de autovangloriação.

Décadas depois, lá pelos idos de 1780, o então governador Luís da Cunha Meneses, criou importantes marcos, como a arborização da vila, o alinhamento de ruas e estabeleceu o primeiro plano de ordenamento urbano, que delineou a estrutura mantida até hoje.

No fim do século XVIII, com o estágio do esgotamento do ouro, a população de Vila Boa sofreu grande redução, de forma que foi necessária uma mudança de postura na tangente das atividades econômicas, isto é, do ouro para a agropecuária. O que nem por isso impediu a comunidade de Vila Boa de continuar vivendo cultural e socialmente em sintonia com os costumes cariocas, então capital do Império.

Do fim do século XVIII, até o início do século XX, as principais manifestações se caracterizaram pela arte e cultura. Foi nessa época que culminou os sarais, jograis, artes plásticas, literatura, artes culinária e cerâmica, além da Procissão do Fogaréu, realizada na Semana Santa.

Nos anos de 1930, aquilo que há muito já vinha sendo arquitetado pelos políticos, nos bastidores goianos, que era a transferência da capital estadual para Goiânia, coordenada pelo então interventor do Estado, Pedro Ludovico Teixeira.

Contudo, a partir de 1983, como forma de homenagear a antiga Vila Boa, uma vez por ano, durante um dia a Cidade de Goiás é reconhecida oficialmente como a capital do Estado, em cumprimento ao decreto do então governador Mauro Borges.

 Gilson Vasco









quinta-feira, 24 de novembro de 2011

Paz, a gente que faz


Motivado pelo crescente índice de criminalidade que vem atingindo a capital goiana e seu entorno, o Estado, instituição portadora da obrigatoriedade de garantir a segurança plena aos cidadãos tenta diminuir a criminalidade, lançando um novo plano de combate aos homicídios, a ser executado pela Policia Civil. A ideia é plausível e acentua como prova de que o governo se coloca numa aparente posição de preocupação em relação ao crescimento da violência em nossa cidade e em nosso Estado. A erudição do delegado da Policia Civil, ao relatar que para combater o homicídio antes será preciso coibir outros crimes que possivelmente levariam aos homicídios, nos deixa convencidos que é preciso, portanto investigar as origens desse mal para se obter sucesso no ato da execução do novo plano.

Essa explosão de crimes, essa gigantesca e lamentável ocorrência violenta que assusta, isola e intimida a sociedade brasileira pode ser vista no dia a dia, nas manchetes dos jornais e a olho nu. As pesquisas também vêm demonstrando crescentes casos de criminalidades em território goiano. Mas o aumento da violência não é uma característica goiana, ele tem atingido todo o nosso país e o mundo inteiro. Não é um mal que surgiu agora, afinal, não é de hoje que existe a violência, seus primeiros procedentes datam de períodos seculares. De acordo com dados bíblicos ela surgiu quando Caim matou seu irmão Abel e daí em diante só tem aumentado e, o que é pior, com um enorme estouro constrangedor de casos cada vez mais absurdos e inaceitáveis.

Cientificamente falando a violência surge no ato sexual, isto é, desde o princípio, uma vez que para estar vivo é preciso deixar milhões de irmãozinhos (espermatozoides) mortos no caminho, no ato da concepção, pois se assim não fosse não estaríamos vivos, selecionados entre milhões como o melhor e mais preparado (se é que existe preparo) para enfrentar esta vida. O que nem por isso nos tornam violentos. Mas na conquista de espaço, no fazer respeitar, a violência se opõe à diplomacia e com isso, o indivíduo que consegue controlar seus impulsos são cidadãos pacificadores, do contrário são violentos e através da repressão, seja no seio familiar, nas ruas ou em qualquer lugar são punidos violentamente, severamente.

Claro que planos com intuito de reduzir os índices de criminalidade devem ser pensados, propagados e executados, mas o que devia ser prática ou pelo menos estar em pauta era a discussão de políticas educacionais voltadas à qualificação e preparação dos indivíduos para a vida em sociedade, não se discute sequer o papel da sociedade perante a formação das crianças. Muitos filósofos, dentre eles Aristóteles já nos atiçavam para uma consciência de como conduzir nossas crianças para que futuramente estas se tornem homens de bem, mas o que estamos fazendo é tudo ao contrário: enquanto a família, base que devia contribuir com a formação consciente dos indivíduos, submete a criança e adolescente a uma espécie de violência psicológica e física a sociedade os provoca a ser o que são. Estigmatizados descobrem nas drogas e, posteriormente, na violência uma suposta solução para seus conflitos, rancores e penares.

A própria mídia, veículo capaz de informar e formar opiniões parece ignorar uma realidade desestruturadora da sociedade por aproveitar do momento desolador e esquece a razão, ou seja, está mais preocupado com a audiência em divulgar fatos trágicos do que contribuir para a redução do extermínio infantil, juvenil e adulto.

Lamentavelmente, o Estado investe muito em cadeias e parece ignorar o fato de que um país que investe mais em educação constrói escolas e derruba presídios, resultando na formação de uma sociedade mais consciente e menos violenta.

Verdade que uma polícia melhor equipada e um Poder Judiciário mais ágil e, se necessário, mais rigoroso contribui muito para a redução da criminalidade. Uma instituição de ensino precisa ter um espaço privilegiado de convívio e de formação da pessoa, precisa ter qualidade e se integrar à comunidade a sua volta. Ora, já observamos que as escolas que permanecem abertas nos finais de semana, para uso da comunidade, conseguem quase eliminar o vandalismo em suas dependências.

Temos que começar a pensar o modelo de sociedade que queremos para nós e para as gerações futuras, e queremos uma sociedade justa onde nossas crianças serão educadas no seio familiar, pois se continuar dessa forma, a violência vai aumentar cada vez mais. Cada dia que se passa o cenário vai ficar ainda mais caótico, a vida será sempre um risco e, viver ou morrer, vai depender mais da sorte do que da segurança que o Estado diz oferecer. Deve ser no seio familiar, na igreja e na escola a preparação para nossas crianças de hoje se tornarem verdadeiros adultos amanhã.

Contudo, compete a cada um de nós contribuirmos com a redução da violência e podemos dar essa contribuição, seja cobrando soluções do Poder Público, seja nos organizando em redes comunitárias de proteção e apoio, de desenvolvimento social e mesmo de questões de segurança pública. Obviamente que não se trata de querer substituir as funções do Estado, mas trabalhar em conjunto. Precisamos sim, urgentemente, começar a destruir o mal pela raiz para que nunca mais ele venha a brotar, pois do mesmo modo que geramos a violência, paz a gente que faz.

Gilson Vasco
Escritor










segunda-feira, 21 de novembro de 2011

Dia Nacional da Consciência Negra


Fim do preconceito racial?

 A lei brasileira de número 10.639, de 9 de janeiro de 2003, estabeleceu que, a partir daquele ano, o dia 20 de novembro passasse a ser uma data para celebrar o Dia Nacional da Consciência Negra, uma vez que foi neste dia, no ano de 1695, que Zumbi, líder do Quilombo dos Palmares, depois de lutar pela cultura e pela liberdade, morreu em combate, defendendo seu povo e sua comunidade. Mas o Dia da Consciência Negra já vinha sendo celebrado desde a década de 1960, embora só tenha ampliado seus eventos nos últimos anos. O Dia da Consciência Negra é uma data para se lembrar a resistência do negro à escravidão de forma geral, desde a vinda dos primeiros africanos para o Brasil, em 1594, e é também dedicado à reflexão sobre a inserção do negro na sociedade brasileira.

Geralmente, na semana em que se comemora o Dia Nacional da Consciência Negra, entidades como o Movimento Negro, o maior do gênero no país, organizam manifestações, palestras e eventos educativos, tendo como principal alvo, as crianças negras, com intuito de evitar o desenvolvimento da inferiorização perante a sociedade. Temas como inserção do negro no mercado de trabalho, cotas universitárias, se há discriminação por parte da polícia, identificação de etnias, moda e beleza negra, etc. também são colocados em pauta e debatidos pela comunidade negra.

Não há dúvida de que a criação desta data foi muito importante, pois, além de servir como um momento de conscientização sobre a importância da cultura e do povo africano na formação da cultura nacional serve para a reflexão sobre a colaboração dos negros africanos, durante nossa história, nos aspectos políticos, sociais, gastronômicos e religiosos de nosso país.

A homenagem a Zumbi também foi mais do que justa, pois este personagem histórico representa a batalha de todos os negros que fizeram a história através de lutas pela justiça social e pelo fim do preconceito racial contra a escravidão, no período do Brasil Colonial.

Embora, desde o início, os negros sempre resistiram e lutaram contra a opressão e injustiças, oficialmente, a escravidão só teve fim em 1888. Mas nem com a oficialização do fim da escravatura, os negros ficaram livres do preconceito dos brancos, perante a sua raça. De modo que até os dias de hoje muitos negros ainda sofrem várias formas de preconceito, inclusive o preconceito racial. Alguém conhece um super-herói negro dessas histórias infantis que fascinam as crianças? Se existir é muito novo ainda, pois o que se sabe é que há uma propagação dos personagens históricos de cor branca, mas a verdade é que a história do Brasil não foi construída somente pelos europeus e seus descendentes, porém a valorização foi dada aos imperadores, navegadores, bandeirantes, líderes militares entre outros. Zumbi dos Palmares é o nosso primeiro herói nacional negro.

Em todo o mundo, homens como Luther King, Nelson Mandela, Albert Luthuli, José do Patrocínio e tantos outros já disseram que, a cor não é ou pelo menos não devia ser, um estorvo para a convivência igualitária entre os homens. Realmente, a união, a paz e respeito mútuo são o que devem prevalecer entre os homens, independente da classe social e da origem racial, ainda mais no nosso país, onde a miscigenação é a marca do nosso povo. Precisamos intensificar a luta pela inserção do negro na sociedade brasileira.

Como se não bastasse o olhar desconfiado de parte da polícia, do branco e de outras organizações para o negro, lamentavelmente, muitas vezes, o preconceito racial se inicia dentro da nossa própria casa, dentro do nosso próprio país, principalmente por aqueles indivíduos de maior poder aquisitivo. Muitos negros brasileiros que conquistam a mídia deveriam usá-la de modo a contribuir com a diminuição de qualquer forma de preconceito perante a sua raça, mas preferem compactuar com o feito ou mesmo ignorá-lo. O preconceito racial está diretamente ligado ao preconceito de classes. Alguém conhece alguma personalidade brasileira, de cor negra, de alto poder aquisitivo ou que esteja na televisão e nas páginas dos jornais casada com negro? Talvez exista, mas é raridade. Os famosíssimos jogadores de futebol, por exemplo, desfilam por aí exibindo sua parceira que geralmente não é negra. Claro que não devemos exigir que eles busquem para parceiras necessariamente mulheres negras, assim como tais, mas mais do que meramente coincidência essas manifestações parecem mesmo uma verdadeira prática do preconceito racial contra a sua própria raça, como se já não bastasse a manifestação do branco contra a cor negra.

Gilson Vasco
Escritor




quinta-feira, 17 de novembro de 2011

Catolicismo e a perda de fiéis


De quem é a culpa?

 Nos últimos dias a imprensa goiana tem divulgado muitas matérias sobre o afastamento do padre Luiz Augusto. Duas vertentes têm sido polemizadas. Uma trata-se da falta de explicação por parte da Arquidiocese de Goiânia em relação ao motivo do afastamento do padre Luiz Augusto da Paróquia Sagrada Família e, posterior proibição de o padre exercer suas funções como celebrar missas, batizados e casamentos. A outra versa em torno da vontade do povo, isto é, comovidos, os fiéis alegam que seu direito de escolha para com aquele pároco não está sendo respeitado.

Creio que o padre não cometeu nenhuma infração que vai contra os costumes e regras sociais, pois caso tivesse cometido algo ilegal, os fiéis seriam os primeiros a retrucar contra o suposto feitor, afinal, não há termômetro mais lógico para julgar atos antissociais do que o próprio povo. Também estamos convencidos de que o Arcebispo de Goiânia, Dom Washington Cruz, personalidade que muito respeito, não só pela sua tolerância, prudência e competência, mas acima de tudo, por ser verdadeiramente um homem temente a Deus e imparcial para com o seu povo.

Indivíduos ligados a Igreja Católica confirmam que não é de agora a desavença entre o arcebispo e o pároco, e que em outros tempos já aconteceu algo semelhante chegando a afetar a comunidade católica local.

Não tenho dúvidas de que logo, logo essa situação será resolvida e tudo voltará a ser como antes na comunidade, pois o que deve prevalecer acima de tudo é a vontade dos fiéis. Não é esse o maior problema que denigre a imagem da Igreja Católica. Claro, não sejamos hipócritas, tubulações isoladas como essa também arranha a imagem da Igreja Católica e contribuem com o declínio do catolicismo, ao ponto de a Instituição perder inúmeros fiéis como vem acontecendo. Mas o que muito denigre a imagem da Igreja Católica, na atualidade, é realmente a falta de punição em relação aos padres que cometem abusos sexuais contra indefesos.

 A Instituição tem pecado muito nesse sentido, pois quando acontece um ato de pedofilia envolvendo um padre, a Igreja prefere transferir para outro lugar o acusado, a puni-lo.

Em todo o mundo, a Igreja Católica, a cada dia, perdem mais fiéis, os adeptos estão migrando para outros seguimentos religiosos, motivados por injustiças cometidas por dirigentes que estão à frente da Igreja.

Não basta a Igreja Católica somente curvar diante da humanidade e pedir perdão pelos escandalosos crimes sexuais envolvendo padres ou qualquer outro membro. É preciso fazer muito mais que isso. Para restabelecer sua credibilidade e reconquistar os fiéis a Igreja Católica precisa ir um pouco mais além do clamor teórico pela justiça, precisa praticá-la. E uma das melhores formas de fazer isso é punindo os criminosos da pedofilia que se dizem padres. Não queremos que os excomunguem como já fez com muitos inocentes em outros tempos ou que os queimem na fogueira do inferno, o pedido da sociedade para com esses é mais simples: apenas os expulsem da Instituição e os entreguem à justiça, pois se assim feito, a Instituição vai tirar das costas o peso da acusação de injusta. Deixa que a própria justiça carregue esse peso, caso não cumpra a sua função de julgar ou condenar. Já está passando da hora de a Igreja Católica se empenhar na tarefa de resgatar seus fiéis. 

 Gilson Vasco
Escritor


Educação, Arte e Cultura levadas a sério


 Recentemente saí de minha moradia em Goiânia e percorri mais de mil quilômetros de distância para atender a um convite, marcar presença na I Mostra de Arte e Cultura realizada por uma escola de Ensino Fundamental, chamada Carlos Drummond de Andrade, com o tema Amor à nossa Terra: Resgatando a Cultura wanderleense, que aconteceu no início da noite de 10 de novembro, na cidade de Wanderley, no oeste baiano, minha terra natal. Durante a realização do evento, por diversas vezes, senti um rio de lágrimas brotar dos meus olhos e transbordar, deixando meu rosto todo inundado de felicidades.

Com um alto grau fidedigno ao tema proposto, não precisou sequer uma hora para que os talentosos alunos da 5ª, 6ª, 7ª e 8ª séries do Ensino Fundamental, da Escola Carlos Drummond de Andrade fizessem o público presente, formado em sua maioria, pelos pais e outros convidados a se derreterem em lágrimas. Os discentes, orientados pelos docentes mostraram para a sociedade wanderleense um apanhado de toda a cultura do município.

Em forma de teatro, músicas, danças, declamações de poesias, indumentárias a caráter e manuseios de instrumentos musicais, os alunos, com toda a garra, apresentaram aos presentes o contexto histórico, social, cultural, religioso, geográfico, político e literário da cidade de Wanderley.

Além do município, o grande homenageado da noite fui eu que, apesar de não saber se sou merecedor de tantas considerações, fui lembrado durante quatro vezes na noite, pela turma da 7ª série: a primeira quando dois pré-adolescentes, um se passando por repórter e o outro interpretando a minha pessoa, falaram sobre minhas obras literárias, meus desejos, costumes e medos; a segunda, por uma aluna que contou de modo resumido a história contida no meu livro A fuga para o Bosque Enlevado; a terceira quando fui presenteado com exemplar de poesias feitas por eles; a quarta e também emocionante homenagem recebi quando todos os alunos vestidos camisetas com o desenho do meu mais novo livro, O mistério do Riacho Tijucuçu convidaram-me para que eu comparecesse ao palco e me colocasse ao lado deles. Outras pessoas também foram homenageadas pelos alunos da 7ª e de outras séries também.

Toda a sociedade wanderleense aprovou a iniciativa da escola e parabenizaram o corpo docente e o corpo discente da instituição dizendo que aquilo era um exemplo de educação, arte e cultura levadas a sério.

Tem razão a sociedade wanderleense. Uma educação levada a sério precisa agregar valores culturais e artísticos, pois somente é conhecedor de sua própria história aquele que tem suas raízes fincadas no chão. E para ter raízes fortes precisa situar-se no presente, olhar para o futuro sem esquecer o passado, suas origens, enfim, sua história.

Quando uma instituição educadora, além de cumprir sua função de educar, preocupa em resgatar os valores sociais e culturais, sabe exatamente como e para onde conduzir seus alunos. Não há resquício de dúvida, o caminho é o sucesso, uma vez que a educação não é somente para o mercado de trabalho, vai muito mais além, a educação é para a vida.
Claro que tudo isso não depende somente da escola, mas também do apoio da família do estudante e do próprio educando, pois não se pode atribuir toda a tarefa de educar a cargo e responsabilidade da escola.

O que pude perceber naqueles discentes é que eles não são meramente alunos, são na sua essência, alunos-estudantes e, por isso, são superiores ao tempo. O que eles apresentaram na I Mostra de Arte e Cultura, não foi simplesmente uma mostra de arte e cultura. Ao demonstrar a preocupação com o meio ambiente, interesse em defender a classe menos favorecida e cobrar agilidade das autoridades daquele município, eles foram ousados, riscaram o dedo no rosto de muitas autoridades que, engajadas na corrupção, ignoram a dor do próximo, foi um tapa na cara de certas autoridades parlamentares que não cumprem as suas funções para as quais foram eleitas.

O que muito chamou a minha atenção é que apesar de a escola ser particular e ser uma escola simples, está sempre aberta à sociedade. Uma escola que, diferentemente de muitas outras escolas particulares, não possuem recursos suficientes para a expansão física, mas carrega como principal função, a garantia de um ensino sério e de qualidade.

Quisera eu que todo o ensino wanderleense fosse assim e que o poder público respeitasse os artistas da terra como vem fazendo a Escola Carlos Drummond de Andrade. Digo isso de modo consciente, pois não há ninguém melhor para falar sobre o seu lar do que aqueles que precisaram ir buscar alternativas de sobrevivência fora do seu município, deixando para trás toda uma história de vida, por falta de apoio e de incentivo à Educação, Cultura, Lazer, Arte etc.

Gilson Vasco
Escritor





sexta-feira, 4 de novembro de 2011

Outra visão sobre a Literatura Goiana


Durante todo o percurso da vida do indivíduo humano, infinitas são as experiências pelas quais ele passa. Ainda que fôssemos seres eternos, muitas coisas não chegariam a passar pela nossa minúscula cabecinha, já que possuímos certas limitações. Mesmo depois de nos constituirmos como sujeitos, continuamos adquirindo novas experiências e tentando sermos cada vez mais ousados. Daí, o nosso enorme poder de transformação. Não importa com que dom nascemos ou qual vocação vamos seguir, a criação é um poder versátil e ilimitado, um campo vasto a ser galopado constantemente e o que vem à frente, muitas vezes, parece misterioso demais aos olhos humanos. No campo da literatura, por exemplo, dia a dia, somos surpreendidos e agraciados com obras e autores tão inovadores capazes de nos prender à leitura na primeira linha do seu texto e nos conduzir a mundos nunca dantes imaginados, sem desgrudar os olhos ou desviar o pensamento daquela arte posta nas páginas.

A exemplo desse veículo que nos leva a mundos brilhantes temos também a Literatura Goiana, que nas suas primícias, no século XVIII, Bartolomeu Antônio Cordovil (pseudônimo de Antônio Lopes da Cruz), nos presenteou com o poema Ditirambo e depois com outros escritos; Luís Antônio da Silva e Sousa, colaborador do Meia-Ponte, Matutina Meyapontense; Luís Maria da Silva Pinto, com o Diccionário da Língua Brasileira; Florêncio Antônio da Fonseca Grostom; Joaquim Teotônio Segurado; Antunes da Frota e o marechal Raimundo José da Cunha Matos, também ficaram muito conhecidos pelas suas crônicas.

No século XIX, a Literatura Goiana começava a ser assediada pelo Romantismo que estava em alta nas poesias europeias e nas de outros cantos do Brasil. Na segunda metade do século XIX e início do século XX, Acrísio Gama, Antero Pinto, Félix de Bulhões, Joaquim Bonifácio de Siqueira, entre outros, destacaram-se principalmente pelas suas poesias reverenciando o cerrado e pelo amor à natureza.

Belíssimos escritores como Hugo de Carvalho Ramos, Pedro Gomes, Gercino Monteiro, Ribeiro da Silva e Derval de Castro marcam a prosa realista na Literatura Goiana.

Ainda no século XIX, com o advento do Parnasianismo e do Simbolismo no Brasil, a Literatura Goiana se expande ainda mais com livros de Érico Curado, Hugo de Carvalho Ramos, Vasco dos Reis, Vítor de Carvalho Ramos, Leo Lynce (Cyllenêo de Araújo) e José Lopes Rodrigues.
No início do século seguinte já começa a aparecer os primeiros contistas goianos como  Matias da Gama e Silva, Zeferino de Abreu, Cora Coralina, Gastão de Deus Vítor Rodrigues.

Ontem, livro de versos, de Leo Lynce abre a porta para o Modernismo em Goiás. Logo, vieram João Accióli, José Godoy Garcia, Bernardo Élis, José Décio Filho, Cora Coralina e Demóstenes Cristino.

Na tangente da prosa regionalista goiana são os textos de Bernardo Élis, de Regina Lacerda e de Antônio Geraldo Ramos Jubé que, a princípio, enaltece a Literatura Goiana, sendo Ermos e Gerais e O Tronco, ambos de autoria de Bernardo Élis, as obras mais importantes da prosa regionalista.
Tropas e Boiadas (1917), contos de Hugo de Carvalho Ramos; Ontem (1928), poesia de Leo Lynce; Veranico de Janeiro (1966), contos de Bernardo Élis; Pium, (1949) romance de Eli Brasiliense; Íntima Parábola (1960), poesia de Afonso Félix de Sousa; Jurubatuba (1972), romance de Carmo Bernardes; Via Viagem (1970), romance de Carlos Fernandes Magalhães; Alquimia dos Nós (1979), poesia de Yêda Schmaltz; Rio do Sono (1948), poesia de José Godoy Garcia; Nos Ombros do Cão (1991), romance de Miguel Jorge; A Raiz da Fala (1972), poesia de Gilberto Mendonça Teles; Joana e os Três Pecados (1983), contos de Maria Helena Chein; Aquele Mundo de Vasabarros (1982), romance de José J. Veiga; Poemas dos becos de Goiás e estórias mais (1965), poesia de Cora Coralina; Relações (1981), romance de Heleno Godoy e Elos da Mesma Corrente (1959), romance de Rosarita Fleury são apenas algumas obras-primas, pois se fôssemos citar toda a arte literária goiana, desde seu florescer aos dias atuais, o leitor teria que se programar para passar muito tempo lendo, ouvindo ou vendo o que Goiás guarda no seu baú literário que a cada dia é remontado com novas belezas criadas pela Literatura Goiana.

Parte da falta de expansão e amadurecimento da Literatura Goiana se deve ao fato do gosto pela arte de literar ter sido despertado tardiamente, em relação ao cenário nacional. Outro motivo foi causado pelo isolamento geográfico do Estado, mas claro que temos nomes de grande destaque no cenário Nacional como a saudosíssima Cora Coralina, Hugo de Carvalho Ramos, Bernardo Élis, José J. Veiga e Gilberto Mendonça Teles. 

Na atualidade, a Literatura que vem sendo desenvolvida em Goiás  também possui sua linha artistica. Admito que a Literatura Goiana é um campo mágico a ser explorado ainda, uma cartola à espera do mágico lhe enfiar a mão. Lógico, verdade seja dita, ainda não conseguiu se equiparar a outras literaturas feitas em outros Estados, como a Literatura Baiana, feita por Jorge Amado, Castro Alves, Dias Gomes etc., etc.,  mas está engatinhando e conquistando maior espaço.

Creio que a função que a Literatura Goiana vem cumprindo vai muito mais além do que simplesmente fazer graça. Aliás, entre outras funções da Literatura Goiana, graça é o que não lhe falta. Está perdendo uma grande chance de se maravilhar com belas risadas quem ainda não leu Causos, de Humberto Milhomem, Mexidos e Remexidos, de Lêda Selma ou quem ainda não se deliciou com As netas do Barão, romance de época de Sandra Rosa. Todas elas são obras-primas que, como outras que ainda teremos a oportunidade de ler, estão inseridas na quarta Coleção Goiania em Prosa e Verso lançada recentemente pela Prefeitura de Goiânia, por meio da Secretaria Municipal de Cultura.

Muitos leitores quando vêem Humberto Milhomem, Heleno Godoy, Miguel Jorge, Eurico Barbosa, Sandra Rosa, Lêda Selma, Aidenor Aires, Leidianne Alves, Cida Almeida, Márcia De Conti e tantos outros autores goianos fazendo parte de uma coleção como essa, colocam em cheque, ao ponto de fazer cair por terra qualquer comentário avesso à função que cumpre esse projeto tão ousado de realizar o maior lançamento de livros já visto antes. Certificam de que a história da Literatura Goiana realmente precisa continuar, de modo que na próxima edição da coleção o número seja bem maior.

Assim como a Literatura Goiana vem se mostrando para o mundo, o Diário da Manhã também tem firmemente cumprido sua função jornalística e social: informando, abrindo espaço para todos e divulgando a nossa cultura goiana para o planeta.



Gilson Vasco
Escritor